domingo, 15 de outubro de 2017

Somália sofre o pior atentado de sua história

Bandeira da Somália


Em entrevista ao jornal norte-americano The New York Times , o ex-ministro de Segurança Interna Abdirizak Omar Mohamed disse que foram confirmadas 237 mortes. Já um senador entrevistado pela "Associated Press" fala em 231 vítimas. Estima-se que existam mais de 300 feridos.
[Atualização: o número de mortos já ultrapassa 280 pessoas]

Além disso, as autoridades descobriram que o atentado foi realizado com dois caminhões-bomba, e não um, como havia sido divulgado anteriormente.

Os médicos ainda lutam para salvar os mais de 200 feridos no atentado, muitos deles queimados além da possibilidade de reconhecimento. As autoridades locais ainda temem que o balanço da explosão continue se agravando, mas, segundo a "Associated Press", oficiais não estão autorizados a conversar com repórteres.
Civis em destroços após atentado com carros bombas na Somália
O local da explosão ficou completamente destruído.

O ataque ocorreu em frente ao hotel Safari, que fica perto de ministérios do governo somali e em uma rua bastante movimentada de Mogadíscio. O prédio foi amplamente destruído pela explosão. "Em nossos 10 anos de experiência em primeiros socorros em Mogadíscio, nunca tínhamos visto algo assim", diz uma mensagem postada no Twitter pelo serviço de ambulâncias da capital.

O presidente Mohamed Abdullahi Mohamed declarou três dias de luto e se juntou às milhares de pessoas que responderam aos apelos desesperados dos hospitais por doações de sangue. "Estou implorando ao povo somali para que doem", afirmou o mandatário.

Segundo o diretor do Hospital Medina, Mohamed Yusuf, citado pela "AP", o local está sobrecarregado de mortos e feridos. "Recebemos pessoas cujos membros foram arrancados pela bomba. É realmente horrível, nunca tínhamos visto algo assim", acrescentou.

De acordo com o Movimento Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho, pelo menos quatro voluntários estão entre as vítimas. "O balanço pode aumentar porque ainda há muitos voluntários desaparecidos", diz um comunicado da entidade.

 A explosão ainda não foi reivindicada, mas o governo culpa o grupo fundamentalista islâmico somali Al Shabab, que vem aumentando suas ações no centro e no sul do país nos últimos meses. A milícia está em guerra contra o Exército e os mais de 20 mil homens enviados pela União Africana, que contam com o apoio de drones dos Estados Unidos.

O atentado ocorreu dois dias depois de um encontro em Mogadíscio entre o presidente da Somália e expoentes do comando dos EUA na África. Além disso, três dias atrás, o governo perdeu dois membros de seu alto escalão, o ministro da Defesa Abdirashid Abdullahi Mohamed e o chefe das Forças Armadas Ahmed Jimale.

Situado no Chifre da África, o país é um dos mais vulneráveis do mundo por causa da pobreza disseminada, da atuação de milícias terroristas e da instabilidade política. Em março passado, o governo somali chegou a declarar estado de calamidade nacional por causa da fome.

Fontes: Terra/Reuters

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Por que os atletas Negros brasileiros não se posicionam contra o racismo?

Colin Kaepernick (dir.) ex-jogador do San Francisco 49ers, iniciou uma onda de protestos contra o racismo e a violência policial que se espalhou pelos EUA.

Por Gill Nguni

Para os amantes dos esportes, principalmente pra quem acompanha as ligas estadunidenses, com destaque para a NBA e a NFL (liga de basquete e de futebol americano, respectivamente), é impossível passar incólume pelos protestos que tomaram conta do país, desde que Colin Kaepernick, então quarterback do San Francisco 49ers, ajoelhou pela primeira vez durante a execução do hino nacional dos Estados Unidos. Começou como uma manifestação solitária e silenciosa contra o racismo e violência policial que afeta muito mais as populações Negras do que as brancas ou de outras etnias, tanto lá quanto aqui, mas acabou se espalhando pelo país como um furacão. 

Em tempos de um abertamente racista Donald Trump como presidente, Kaepernick despertou sentimentos diversos na população. Teve uma forte reação dos mais conservadores, sofreu boicotes de patrocinadores, não teve seu contrato renovado com o 49ers nem conseguiu outro time na liga, mas, em contrapartida, viu as vendas de sua camisa dispararem (como pode ser visto AQUI) e recebe até hoje, mais de um ano depois, a adesão de demais atletas e personalidades Negras do país, como a tenista Serena Williams, astros da NBA como LeBron James e Stephen Curry e bandas como o Prophets of Rage (composta por músicos do Rage Against The Machine, Cypress Hill e Public Enemy), além do apoio de vários jogadores e instituições da própria NFL. A eleição de Trump à Casa Branca, com suas declarações lamentáveis, contribuiu para o aumento das tensões raciais nos EUA, cada vez mais violentas.

Voltando ao questionamento do título, por que é tão incomum ver manifestações públicas de repúdio de atletas Negros ao racismo no Brasil? Por que personalidades dos esportes, como Pelé, Neymar, Daniel Alves, Gabriel Jesus, William, entre outros, não se posicionam? Aqui, os atletas só se manifestam quando eles próprios são as vítimas e, até mesmo nestes casos, a manifestação é tímida, logo abafada pela imprensa. Não é raro acontecer um caso de racismo nos estádios de futebol, mas não tem muito alarde nem repercussão. Assim como nos EUA, a violência policial também é mais incisiva nos bairros periféricos e contra as populações Negras. O encarceramento em massa, as parcialidades da justiça e o biotipo suspeito têm a mesma cor, aqui ou lá.
O caso Aranha (ex-goleiro do Santos) foi o último de grande repercussão no Brasil, em 2014. O Grêmio foi excluído da Copa do Brasil, após insultos racistas de sua torcida ao goleiro, mas nada mudou na maneira como o país lida com o racismo.


Uma hipótese levantada e que eu prontamente discordo é de que "o racismo nos Estados Unidos é escancarado e o do Brasil é velado". Não tem nada de "velado" na maneira como o racismo nos atinge. Muito pelo contrário, é alardeado aos quatro ventos por "personalidades" da TV, do entretenimento e da política, incluindo aspirantes ao cargo de presidente da República. É explícito na ausência de pessoas Negras na mídia, no jornalismo, nos programas de esportes e nos cargos de chefia de grandes empresas. 

Outras pessoas dizem que a formação dos atletas estadunidenses, normalmente oriundos de faculdades, influencia em seu posicionamento, por possuírem uma "bagagem cultural" maior que a maioria dos atletas brasileiros, de origem humilde e com baixa escolaridade. Esta afirmação soa até preconceituosa e elitista, por achar que apenas as pessoas de nível superior sabem se expressar com coerência. O racismo não escolhe escolaridade nem classe social. Nenhum Negro está isento de ser uma vítima, sendo famoso ou anônimo, professor ou analfabeto. Artistas de diversas áreas e moradores de comunidades quilombolas nem sempre possuem nível superior, mas se manifestam de maneira contundente contra o racismo e o verdadeiro genocídio do povo Negro, comparável às mais terríveis zonas de guerra do Oriente Médio ou do Leste Europeu.

Não falta escolaridade. Falta coragem. Muitos atletas Negros têm medo de perder os privilégios dos patrocinadores, temem represálias ou, em casos mais extremos, até gostam de se sentir "diferentes" dos demais, passando batidos pelo que acontece e pelo que veem diariamente nos noticiários, levando a vida como se não tivessem nada com isso. Até que o racismo os encontre num restaurante chique, num condomínio, numa concessionária ou na porta giratória de algum banco.


quinta-feira, 14 de setembro de 2017

ALERJ aprova lei contra o racismo: punição pode chegar a interromper jogo

A campanha de conscientização da CBF é exibida em todos os jogos do Campeonato Brasileiro.

O futebol deu um novo passo contra o racismo. Nesta quinta-feira, no plenário da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, foi aprovado o Projeto de Lei que prevê multas aos clubes em caso de discriminação por parte de torcedores nos estádios da cidade e do estado.
Caso os clubes não tomem providências em relação às atitudes racistas dos torcedores, as punições são variadas: advertência, multas de R$ 155 a R$ 155 mil e até mesmo a interrupção das partidas. O texto, de autoria do deputado licenciado e atual secretário estadual de Esporte, Lazer e Juventude, Thiago Pampolha, e dos deputados Jânio Mendes e Luiz Martins (ambos do PDT), recebeu emendas e segue para sanção do Governador Luiz Fernando Pezão.
Após a sanção, o secretário irá promover uma reunião com dirigentes de clubes e torcidas organizadas para debater o tema e trabalhar em conjunto, com ações preventivas e de conscientização.
Fontes: Globo Esporte.com/ SuperVasco.com

sábado, 2 de setembro de 2017

A luta de três irmãs que tentam manter vivo idioma que só elas sabem falar

Katrina Esau conseguiu criar forma escrita do N|uu para poder ensiná-lo aos mais jovens

Katrina Esau luta para salvar a vida de sua língua materna.
A idosa sul-africana, de 84 anos, é apenas uma de três pessoas no mundo capazes de falar fluentemente o N|uu, uma das línguas faladas pela comunidade San, também conhecida como Bushmen. Todas as pessoas pertencem à mesma família.
O N|uu é considerado a língua original do sul da África, mas está em uma lista da ONU de idiomas considerados "sob risco de extinção".

"Quando era pequena, só falava N|uu e ouvia um monte de gente falando-a também. Mas agora isso mudou", diz Esau, que vive na cidade de Upington, na província sul-africana de Northern Cape.
Por séculos, os San circularam livremente pela região vivendo da caça e da coleta de vegetais. Hoje, porém, as práticas desapareceram. Seus descendentes dizem que a língua é uma das últimas ligações entre eles e a história de seu povo.
Em uma pequena casa de madeira, Esau dá aulas de N|uu. Ensina para crianças da comunidade os 112 sons da língua, incluindo os 45 "estalos" (cliques).
"Não quero que o idioma desapareça quando eu morrer", diz a idosa, que começou a dar aulas de N|uu há 10 anos.
"Quero passar o máximo que puder, mas tenho plena noção de que não há muito tempo".
As irmãs Hanna Koper, Katrina Esau e Griet Seekoei são as últimas falantes no mundo de N||uu.
Em Upington, as pessoas hoje em dia falam principalmente o afrikaans, o idioma que evoluiu do holandês levado à África do Sul pelos colonizadores do país europeu, no século 17.
"O homem branco nos batia se nos visse falando nossa língua. Abandonamos o N|uu e aprendemos a falar afrikaans, embora não sejamos brancos. Isso afetou nossa identidade", diz Esau.
As outras únicas pessoas que falam o idioma são as irmãs de Esau, Hanna Koper e Griet Seekoei, ambas com mais de 90 anos.
Assim como muitas línguas africanas, o N|uu foi transmitido de forma oral, mas essa tradição ameaça sua sobrevivência.
Até bem recentemente, não havia forma escrita da língua.
Criançcas de Upington falam principalmente o idioma de origem europeia afrikaans, mas Esau espera mudar isso.

Isso fez com que Esau precisasse da ajuda de linguistas. Sheena Shah, da Escola de Estudos Orientais e Africanos (Soas), em Londres, e Matthias Brezinger, do Centro para a Diversidade Linguística Africana, em Cidade do Cabo (África do Sul), a ajudaram a criar um alfabeto e regras básicas de gramática para fins didáticos.
"Essas comunidades veem a língua como uma importante marca de sua identidade", diz Shah.
"Quando analisamos línguas africanas, aprendemos que elas comunicam diferentes perspectivas de vida, relacionamentos, espiritualidade e humanidade", acrescenta Brezinger.
"Há uma riqueza de conhecimento passado de geração para geração em comunidades indígenas e sobre a qual o Ocidente sabe muito pouco. Quando essas línguas morrem, esse conhecimento único se perde".

Desaparecimento

O N|uu não é a única língua sob o risco de desparecer na África do Sul. Na cidade de Springbok, também na província de Northern Cape, falantes do Nama fazem lobby junto ao governo para que a língua ganhe status oficial no país.
Dança tradicional em Springbok
Image captionFalantes do Nama querem que a língua se torne o 12o idioma oficial da África do Sul
Apesar de amplamente falado na África do Sul ao longo da história, o Nama não é reconhecido como uma das 11 línguas oficiais da chamada "Nação do Arco-Íris".
"É muito triste que nossas crianças não possam aprender Nama e que jamais poderão se comunicar com os mais velhos em sua própria língua", diz Maria Damara, de 95 anos, uma das poucas pessoas que falam Nama na cidade.
"Qual será o futuro de nossa cultura?"

As línguas mais faladas da África do Sul (em percentual da população)
  • Zulu: 22.7%, Xhosa: 16%, Afrikaans: 13.5%, Inglês, 9.6%, Setswana, 8%, Sesotho: 7.6%
  • O país tem ONZE línguas oficiais.
  • O inglês é a linguagem comum mais falada e é usada oficialmente e nos negócios
Fonte: SA.info/Censo de 2011

O líder comunitário Wiela Beker, de 56 anos, concorda:
"Se você não tem uma língua, você não tem coisa alguma. Estou conversando em inglês com você, mas não sou inglês. Quero falar Nama porque isso é o que sou."
"A não ser que façamos alguma coisa, nossa cultura vai morrer. Lutamos por nossa cultura quando lutamos por nossa língua", diz ele.
Beker diz que, sem a ajuda do governo, não vai demorar muito para que o Nama se encontre na mesma situação do N|uu - à beira da extinção.
Fonte: BBC Brasil

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Calendário Negro: Surge o Hip Hop, numa festa no Bronx, Nova York, em 1973

Estilo surgiu na festa de aniversário da irmã do jamaicano Clive Campbell, que ficou mais conhecido como DJ Kool Herc, considerado o fundador do hip hop.

A exemplo de qualquer estilo de música, o hip hop tem suas raízes em outras formas e sua evolução foi moldada por muitos diferentes artistas. Porém, este é um caso a ser notado porque surgiu precisamente em 11 de agosto de 1973, numa festa de aniversário num salão de festas de um prédio de apartamentos no West Bronx, cidade de Nova York. O local desse nascimento foi na avenida Sedwick, 1520 e o homem que agia como mestre de cerimônias dessa festa histórica foi Clive Campbell, irmão da menina que aniversariava, mais conhecido para a história como DJ Kool Herc, pai fundador do hip hop.

Nascido e criado até os 10 anos em Kingston, Jamaica, DJ Kool Herc começou a rodar seus discos em festas e nos intervalos das apresentações da banda em que seu pai tocava, quando ainda era adolescente no começo dos anos 1970. Herc frequentemente imitava o estilo dos DJs jamaicanos. No entanto, adicionava uma fala enquanto fazia girar o disco. Porém seu significado histórico nada tem a ver com o rap. A contribuição de Kool Herc ao hip hop foi ainda mais fundamental.
A inovação distintiva do DJ Kool Herc surgiu da observação de como as multidões reagiam as diferentes partes de fossem quais fossem os discos que aconteciam ser tocados: “Percebi que as pessoas costumavam esperar por uma determinada parte do disco para dançar, talvez devido ao seu peculiar modo de se movimentar.”

Esses momentos tendiam a ocorrer nos breques em que só a bateria tocava – passagens do disco quando os vocais e outros instrumentos cessavam de cantar e tocar completamente substituídas por um ou dois intervalos de puro ritmo.
O breakdance é uma das principais expressões da cultura hip hop



O que Kool Herc decidiu fazer foi usar os dois toca-discos num característica disposição de um DJ - não como meio de fazer uma suave transição entre dois discos, mas como meio de ir e voltar repetidamente  entre duas cópias de um mesmo disco, estendendo desse modo a curta intervenção da bateria que os dançantes mais gostavam de ouvir. Chamava esse truque de “Merry Go-Round”.  Hoje é conhecido como "break beat." Breakbeat é uma vertente da música eletrônica, com a técnica do back-to-back, dois discos iguais e um mixer.
O Breakbeat é mais conhecido como uma música que se caracteriza pelos samplers de ritmos hip-hop, funk e electro e que logo se modificam e alteram para criar os denominados "breaks".
A cultura Breakbeat é extensa e tem suas raízes no techno do início dos anos 1980 e no hip-hop. Ele alcançou sua expansão mais importante quando artistas incorporaram estes breakbeats ao hardcore techno, com suas tonalidades escuras e rápidas que pouco a pouco se transformaram em um novo estilo: o jungle, posteriormente denominado drum and bass.
O Breakbeat se manteve como um ritmo próprio e está começando a nutrir novas formas e subgêneros: o BigBeat (que incorpora elementos do rock), o AcidBreak (com TB-303s), o EletroBreak (mais sintético), o FunkyBreak (com elementos funk), dentre outros.
No verão de 1973, o DJ Kool Herc vinha usando e refinando seu estilo ‘break-beat’ na maior parte do ano. A festa de sua irmã de 11 de agosto foi o ponto de partida, colocando-o posteriormente diante da maior plateia que jamais o assistira, valendo-se do mais poderoso sistema de som com o que jamais trabalhara. Foi um enorme sucesso e deu inicio a uma revolução musical, seis anos antes que a expressão “hip hop” entrasse no vocabulário popular.
Fonte: Opera Mundi

domingo, 30 de julho de 2017

Alberto da Costa e Silva: Por uma História menos eurocêntrica


Quando começou a se interessar pela história da África, o poeta, diplomata e historiador Alberto da Costa e Silva ouviu: “Por que você, um diplomata, um homem tão letrado, não vai estudar a Grécia?”
Justamente porque todo mundo estudava a Grécia, explica, ele resolveu estudar a África. Hoje, é o principal africanólogo brasileiro, autor de clássicos como A Enxada e a Lança: a África antes dos Portugueses e A Manilha e o Libambo: a África e a Escravidão, de 1500 a 1700. E, aos 84 anos, prepara um novo livro para completar sua trilogia sobre história africana.
Formado em 1957 pelo Instituto Rio Branco, Costa e Silva serviu em vários países e foi embaixador na Nigéria.
É membro da Academia Brasileira de Letras, autor e organizador de mais de 30 livros. Por sua obra, recebeu em 2014 o Prêmio Camões, o mais prestigiado da língua portuguesa.
Filho do poeta piauiense Antônio Francisco da Costa e Silva, nasceu em São Paulo e viveu no Ceará até aos 12 anos, quando mudou-se para o Rio de Janeiro. Cresceu entre livros e costuma dizer que, como no verso do poeta francês Charles Baudelaire (1821-1867), seu berço “ao pé da biblioteca se estendia”.
Foi entre livros, quadros e esculturas, no apartamento em que guarda lembranças de vários lugares do Brasil e do mundo, que ele recebeu a BBC Brasil às vésperas do Dia da Consciência Negra para falar da história do continente pelo qual se apaixonou.
BBC Brasil: Como o Brasil aprendeu a história da África?
Alberto da Costa e Silva: A história da África durante muito tempo foi uma espécie de capítulo de antropologia e etnografia do continente africano. Eram livros que árabes e europeus escreveram sobre suas viagens. Data do fim da Segunda Guerra Mundial a consolidação a história da África como disciplina à parte, semelhante à história da Idade Média europeia, ou à história da China.
Entre 1945 e 1960 seu estudo começa a ganhar grandes voos, tanto na África quanto na Europa, sobretudo Inglaterra e França. Curiosamente o Brasil esteve ausente disso. Os historiadores brasileiros sempre viam a história das relações Brasil-África com a África figurando como fornecedora de mão de obra escrava para o Brasil, como se o africano que era trazido à força nascesse num navio negreiro.
Era como se o negro surgisse no Brasil, como se fosse carente de história. Nenhum povo é carente de história. E a história da África é uma história extremamente rica e que teve grande importância na história do Brasil, da mesma maneira que a história europeia.
De maneira geral, quando se estuda a história do Brasil, o negro aparece como mão de obra cativa, com certas exceções de grandes figuras, mulatos ou negros que pontuam a nossa história. O negro não aparece como o que ele realmente foi, um criador, um povoador do Brasil, um introdutor de técnicas importantes de produção agrícola e de mineração do ouro.
BBC Brasil: O senhor poderia citar alguns exemplos?
Costa e Silva: Os primeiros fornos de mineração de ferro em Minas Gerais eram africanos. Fizemos uma história de escravidão que foi violentíssima, atroz, das mais violentas das Américas, uma grande ignomínia e motivo de remorso. Começamos agora a ter a noção do que devemos ao escravo como criador e civilizador do Brasil.
Quando o ouro é descoberto em Minas Gerais, o governador de Minas escreve uma carta pedindo que mandassem negros da Costa da Mina, na África, porque “esses negros têm muita sorte, descobrem ouro com facilidade”. Os negros da Costa da Mina não tinham propriamente sorte: eles sabiam, tinham a tradição milenar de exploração de ouro, tanto do ouro de bateia dos rios quanto da escavação de minas e corredores subterrâneos. Boa parte da ourivesaria brasileira tem raízes africanas.
Temos de estudar o continente africano não como um capítulo à parte, um gueto. A história da África está incorporada à história do mundo, porque ela foi parte e é parte da história do mundo. Que a história do negro no Brasil não seja isolada, como se o negro tivesse sido um marginal. O negro foi essencial na formação do Brasil.
Principal africanólogo brasileiro, diplomata Alberto da Costa e Silva diz que negro não aparece na nossa história ‘como realmente foi, um criador, um povoador do Brasil’.

BBC Brasil: Qual a importância de um personagem como Zumbi?
Costa e Silva: Havia um suplemento juvenil do jornal A Noite, sobre grandes nomes da história, e eu me lembro perfeitamente de um caderno sobre Zumbi. Zumbi está aliado de tal maneira à ideia de liberdade que é difícil escrever sobre ele sem ser apaixonado.
Zumbi não é um nome, é um título da etnia ambundo, significa rei, chefe. Palmares era como um Estado africano recriado no Brasil. Na África era muito comum isso. Em torno de um núcleo de poder forte se aglomeravam vários povos e formavam um novo povo. Isso é uma hipótese.
BBC Brasil: O senhor vê um aumento do interesse dos brasileiros pela questão negra?
Costa e Silva: Tenho a impressão de que todos temos dentro de cada um de nós um africano. Podemos não ter consciência disso, mas é permanente. Há naturalmente hoje em dia uma percepção mais nítida do que é a África, a escola começa a dar uma visão mais clara.
Mas ainda apresenta visões distorcidas. Uma vez uma professora veio me dizer que era absurdo que apresentássemos Cleópatra como uma moça branca, quando ela era negra. É um equívoco isso. Cleópatra não era negra nem mulata. Era grega. Os Ptolomeus, uma dinastia grega, governavam o Egito e não se misturavam.
BBC Brasil: Na África também havia escravos, não?
Costa e Silva: Escravidão houve em todas as culturas no mundo. Todos nós somos descendentes de escravos. Houve escravidão em toda a Europa, na Indonésia, entre os índios americanos, na Inglaterra. Na África havia todos os tipos de escravidão, e até hoje em certas regiões africanas os descendentes de escravos são discriminados. Quase toda a África teve escravidão.
A escravidão transatlântica, da África para as Américas, a nossa, tem uma diferença básica: pela primeira vez era uma escravidão racial. Era um especial aspecto da perversidade dela. No início não, mas a partir de certo momento, passa a ser exclusivamente negra. Foi o maior deslocamento forçado de gente de uma área para outra que a história já conheceu, e o mais feroz.
O Brasil foi o último país das Américas e do Ocidente a abolir a escravidão. O último do mundo foi a Mauritânia (na África), em 1981.
BBC Brasil: Como analisa o racismo hoje no Brasil?
Costa e Silva: Existe racismo, e muitíssimo. No nosso racismo, não temos um partido racista, mas temos repetidas manifestações de racismo no seio da sociedade. É dificílimo, para um negro, ascender socialmente. A discriminação se exerce de forma muitas vezes dissimulada, mas que os marca muito. Mas está mudando. Sinto mudanças.
É importante que os descendentes de africanos saibam que eles têm uma história tão bonita quanto a história da Grécia. Que eles não eram bárbaros, que não são descendentes de escravos. São descendentes de africanos que foram escravizados.
Para mim o importante não é que haja cota na universidade. Acho que tem de haver cota em tudo. Se você vai se candidatar a um cargo de atendente de hotel de primeira classe, se você for negro, você tem dificuldade. O preconceito é discriminatório. Ele não impede você de usar o mesmo banheiro, o mesmo bebedouro, mas dificulta o acesso (do negro) às camadas das classes média e alta.
Fonte: BBC Brasil

terça-feira, 18 de julho de 2017

#MandelaDay - 99 anos de Nelson Mandela



Líder. Guerrilheiro. Revolucionário.

Muito antes da imagem "paz e amor" que as pessoas costumam associar a Rolihlahla Mandela, existiu um homem que lutou, no sentido literal da palavra, pela libertação da África do Sul frente ao Apartheid, ao racismo e às injustiças sociais, primeiro em seu país, depois, em todo o continente africano, com seus ecos espalhando-se pelo mundo inteiro.

Na primeira página de sua autobiografia, Mandela diz:

"Fora a vida, um temperamento forte e uma conexão permanente com a casa real de Thembu, o único presente que meu pai me deu quando nasci foi um nome, Rolihlahla. Em Xhosa, Rolihlahla significa literalmente "arrancando o galho de uma árvore", mas coloquialmente, o significado mais preciso seria "encrenqueiro" [...]. Anos mais tarde, amigos e parentes atribuíram ao meu nome de nascença as muitas tempestades que tenho, ao mesmo tempo, causado e enfrentado. Meu nome mais conhecido em inglês [Nelson] não me foi dado até o meu primeiro dia de aula."


Hoje seria o 99º aniversário de Nelson Mandela. Um dia de celebração e reflexões. Viva Mandela!






"Nosso grande medo não é o de que sejamos incapazes.

Nosso maior medo é que sejamos poderosos além da medida. É nossa luz, não nossa escuridão, que mais nos amedronta.
Nos perguntamos: "Quem sou eu para ser brilhante, atraente, talentoso e incrível?" Na verdade, quem é você para não ser tudo isso?...Bancar o pequeno não ajuda o mundo. Não há nada de brilhante em encolher-se para que as outras pessoas não se sintam inseguras em torno de você.
E à medida que deixamos nossa própria luz brilhar, inconscientemente, damos às outras pessoas permissão para fazer o mesmo".

(Nelson Mandela, em seu discurso de posse da Presidência da República da África do Sul, em 1994)