sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Wakanda Forever!


Não tenho a pretensão de fazer nenhuma análise aprofundada sobre o filme, até pra não estragar a experiência de quem ainda não o assistiu, e porque isso pode ser facilmente encontrado em qualquer site especializado. O que eu não poderia deixar de falar é sobre o impacto que o filme Pantera Negra vem causando, especialmente em mim e entre a comunidade Negra do Brasil.

Sou fã de HQ, a ponto de já ter sido assinante da Marvel e da DC, além de ter conseguido a proeza de assistir a TODOS os filmes destas editoras no cinema (grande parte deles, na estreia), desde X-Men - O Filme (2000) até hoje. A exceção da própria franquia X-Men, que tem debates profícuos sobre racismo e perseguição às minorias, mesmo de forma metafórica, Pantera Negra é o primeiro filme de super-herói a trazer estas discussões para um plano mais central. Por mais que existam dezenas de heróis Negros por aí, nenhum deles nunca foi protagonista (tá, tem o Blade de Wesley Snipes, a exceção que confirma a regra...) e JAMAIS uma produção da Marvel ou da DC contou com tantos personagens Negros ou tratou de um tema tão sério como o racismo com a seriedade que o tema merece.

A representatividade que tanto pedimos está se tornando cada vez maior, não porque as empresas nos amam ou estão mais conscientes, mas sim por perceberem que isso vende. Nós Negros e Negras também consumimos e somos uma fatia enorme desse bolo, e eles não podem mais ignorar isso. A maior prova disso é a mobilização mundial das pessoas Negras em torno desse filme. Várias celebridades dos EUA patrocinaram o acesso a centenas (ou milhares) de crianças de comunidades carentes, escolas etc., e aqui no Brasil, através das redes sociais, vários encontros foram marcados para "empretecer" as salas de cinema, de uma maneira como nunca se viu. A criança Negra agora tem um personagem famoso pra se inspirar nas brincadeiras com os amigos, alguém parecido com ela. 

Em Salvador, encontro marcado pelas redes sociais lotaram o cinema na estreia.


Já comentei NESTE LINK, em outra oportunidade, o quanto a minha infância e a dos meus amigos poderia ter sido melhor se existissem mais brinquedos que nos representassem, para além dos papéis de escravizados, subalternos ou criminosos, que a televisão e o cinema tentaram nos relegar por gerações consecutivas. Estamos alcançando esse protagonismo aos poucos, embora ainda tenhamos um longo caminho pela frente. 

O que torna Pantera Negra um filme tão especial? TUDO! O diretor Ryan Coogler, o elenco, que conta com Chadwick Boseman, Lupita Nyong'o, Forest Whitaker, Michael B. Jordan, Danai Gurira, Angela Basset, Letitia Wright, e muitxs outrxs... a trilha sonora, o roteiro excelente, com diálogos e referências fortes e emocionantes e até mesmo a construção do "vilão", bem diferente da visão maniqueísta de "bem" e "mal" que nos acostumamos a ver nos filmes de herói. Jordan convence e até nos desperta o sentimento de empatia, na pele de Erik Killmonger, quando expõe seus motivos.

O que pode parecer "bobagem" para as pessoas brancas, que nunca precisaram passar por isso, pra nós Negrxs, é uma questão fundamental de aceitação e autoestima. Conheço pessoas Negras muito bonitas que não se veem como tal ou que estão passando pelo processo de reconhecimento só depois de adultas. Precisamos aprender a nos amar desde cedo, porque o doentio sistema racista vai sempre tentar nos fazer pensar que nós é que temos algum problema. 
Wakanda Forever!

Claro que eu cheguei cedo, né? Não perderia essa estreia por nada!


quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Raio Negro e Representatividade


Pouco a pouco, nossas demandas por representatividade Negra nas diversas mídias e no cinema vão sendo atendidas da maneira que deve ser: com protagonismo e histórias densas, escritas, dirigidas e com trilha sonora de profissionais Negros. Se já tivemos recentemente Luke Cage, Defensores, Star Wars e Star Trek Discovery, além da participação do Pantera Negra em Capitão América: Guerra Civil, 2018 já começa com Raio Negro em janeiro e o filme solo do Pantera Negra em fevereiro, um ótimo indício da mudança de direção dos ventos. Cabe ressaltar, entretanto, que ainda falta um maior protagonismo entre as heroínas Negras (hey, Fox/Marvel/Disney, cadê o filme da Tempestade??).

Na série que estreou ontem na Netflix e vai ter um episódio novo toda terça-feira, Raio Negro ("Black Lightning", no original) tem como alter ego o diretor do colégio Garfield High School, Jefferson Pierce (interpretado por Cress Williams), que se aposentou da carreira heroica nove anos atrás, e se dedica em tempo integral ao trabalho e à criação de suas duas filhas, Anissa e Jennifer Pierce. A primeira, bastante engajada em causas sociais, assim como o pai, e a outra ainda não demonstra o mesmo entusiasmo, mas as coisas têm potencial pra mudar nos próximos episódios. Seu retorno à ação acontece quando uma gangue, chamada de "Os 100", ameaça sua família e sua escola. Esta é outra característica marcante que difere Raio Negro das séries de heróis brancos convencionais: ele já é um herói estabelecido desde o primeiro episódio, mesmo estando aposentado, ao contrário das histórias em que o episódio piloto inteiro se dedica a contar a origem do herói, causada por algum acidente ou tragédia familiar. A origem dos seus poderes elétricos é mostrada num flashback rápido.


Sem dar muitos spoilers, já que a série estreou no Brasil há 24 horas atrás, é possível identificar vários elementos presentes em Luke Cage, por exemplo, e que são parte do cotidiano de várias comunidades Negras, tanto aqui quanto lá nos EUA: racismo, violência policial e um destaque para a trilha sonora repleta de Rap, Soul, R&B e outros elementos da musicalidade Negra. O próprio showrunner Salim Akil, que assina a série, revelou ao New York Times que alguns dos eventos retratados na série são autobiográficos: “Eu fui parado pela polícia, algumas vezes, mas minha raiva em ser parado quase me tirou a vida. Parei de tentar fingir. Em determinado momento, fechei meus olhos e pensei. Depois, me perguntei: ‘será que vale morrer por isso?’”
A cena em questão aparece logo nos primeiros minutos da série e é extremamente revoltante, até por saber que é daquele jeito que acontece. Eu mesmo já passei por isso também.

Assim como Luke Cage e Pantera Negra, Raio Negro não é um personagem qualquer. Ele mostra que o homem Negro precisa ser um herói e um exemplo para sua comunidade, com ou sem poderes; com ou sem máscaras. O inimigo nem sempre é um super-vilão com poderes cósmicos que quer dominar o mundo. Muitas vezes, ele acredita estar fazendo justiça e está mais perto do que se imagina.

Confira o trailer da série: 








quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

A superpotência africana que chegou a conquistar o Egito, mas foi esquecida pela história

Construção aksumitaDireito de imagemGETTY IMAGES

Image captionReis aksumitas controlavam comércio no mar Vermelho

A grande pirâmide de Gizé, no Cairo, é considerada uma das sete maravilhas do mundo antigo.
Mas quem segue o curso do rio Nilo e viaja rumo ao sul, no território onde hoje é o Sudão, se depara com milhares de construções similares, que pertenceram ao reino de Kush (ou Cuche).
Kush foi uma superpotência africana e sua influência se estendeu até o atual Oriente Médio.
O reino existiu por centenas de anos e, no século VIII antes de Cristo, conquistou o Egito, também na África, governando-o por décadas.
E o que restou dessa civilização é impressionante.
  • Pirâmides no Sudão

Direito de imagemGETTY IMAGES
Image captionUnesco considera Jebel Barkal Patrimônio da Humanidade

Legado

Mais de 300 pirâmides continuam intactas, praticamente inalteradas desde que foram construídas, há cerca de 3 mil anos.
As mais suntuosas se encontram em Jebel Barkal, uma pequena montanha no Sudão do Norte que, junto com a cidade de Napata, são consideradas patrimônio da humanidade pela Unesco, o braço da ONU para educação, ciência e cultura.
No local, além das pirâmides, há tumbas, templos e câmaras funerárias completas, com pinturas e desenhos que a Unesco descreve como "obras-primas de um gênio criativo que mostram os valores artísticos, sociais, políticos e religiosos de uma comunidade de mais de 2 mil anos".
Pirâmides do Reino Kush, no SudãoDireito de imagemKUSH COMMUNICATIONS

Image captionMais de 300 pirâmides do reino Kush seguem praticamente intactas no Sudão

Os cuchitas eram africanos negros, em sua maioria agricultores, mas também artesãos e mercadores. Eles vendiam ouro, incenso, marfim, ébano, óleos, penas de avestruz e pele de leopardo.
Além de possuir minas de ouro e terras cultiváveis, o reino ocupava uma localização comercialmente estratégica, dado que de lá se transportavam mercadorias pelo rio Nilo e também por estradas que levavam ao mar Vermelho.
Suas riquezas chegaram a rivalizar com as dos faraós.
Mas até hoje o legado de Kush ainda não é amplamente conhecido, inclusive entre os africanos.

Pirâmides de MeroeDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionAfricanos desconhecem sua história, dizem especialistas

História da África

Um projeto com objetivo de resgatar o passado do continente nasceu no início da década de 1960.
A África se tornava independente da Europa e, em meio à onda nacionalista, muitos de seus jovens líderes assumiram o compromisso de não só descolonizar seus países, mas também suas histórias.
Tampouco havia interesse de historiadores ocidentais. Por causa da falta de registros escritos, muitos deles simplesmente abandonaram a tarefa de revisitar o passado do continente.
Assim, a Unesco ajudou estudiosos africanos a criar o projeto, recrutando 350 especialistas de diferentes áreas e de toda a África.
O resultado foi uma coletânea de oito volumes que abrangem desde a pré-história até a era moderna.
O oitavo livro foi concluído na década de 1990 e o nono já começou a ser preparado.

Pinturas das pirâmides de Jebel BarkalDireito de imagemKUSH COMMUNICATIONS
Image captionNo interior dos restos arqueológicos de Jebel Barkal, há pinturas consideradas "obras-primas" pela Unesco

Polêmica

Houve polêmica, contudo, em torno da decisão da Unesco de começar a coletânea com um exemplar sobre as origens da humanidade, expondo a teoria da evolução.
O volume provocou a ira de comunidades cristãs e muçulmanas, dado que alguns países da África acreditavam no criacionismo, doutrina que defende que os seres vivos surgiram do criador e não são, portanto, fruto da evolução.

Cristão ortodoxo da EtiópiaDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionMonarcas do Reino de Aksum (ou Axum) foram os primeiros a abraçar o cristianismo

O paleontólogo queniano Richard Leakey, que contribuiu para a elaboração do primeiro volume, diz acreditar que o fato de o ser humano ter vindo da África continue sendo algo digno de reprovação por alguns ocidentais, que preferem negar essa origem.
Apesar disso, continua pouco divulgada a história do reino de Kush, onde as rainhas podiam governar por direito próprio.
O mesmo ocorre com o reino de Aksum, descrito como uma das quatro grandes civilizações do mundo antigo.
Os reis aksumitas controlavam o comércio do mar Vermelho desde seu território, situado na região onde estão atualmente a Eritreia e a Etiópia.
Além disso, foram os primeiros governantes da África a abraçar o cristianismo e em convertê-lo em religião oficial do reino.

Sítio arqueológico de MeroeDireito de imagemAFP
Image captionSítio arqueológico de Meroe, a 300 km ao norte da capital do Sudão, Cartum

'Escuridão'

Para especialistas, por força da influência colonialista, essa história é pouco conhecida até entre acadêmicos e professores africanos.
Por causa dela, não tiveram acesso a um relato integral e cronológico de sua história.

Escola da ÁfricaDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionUnesco espera que história da África seja ensinada nas escolas por especialistas locais

Hugh Trevor-Roper, um dos mais destacados historiadores britânicos de todos os tempos, diz: "Talvez no futuro será possível ensinar algo sobre a história da África. Mas até o momento não há nenhuma ou quase nenhuma: só existe a história dos europeus na África".
"O resto é escuridão, assim como ocorre com a história pré-europeia e a pré-colombiana na América. Uma escuridão que não é sujeito para a história", completou.
A declaração é de 1965, mas continua atual.
Fonte: BBC Brasil

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Ano Novo, Tattoo Nova!


Abaixo do mapa da África, que eu já tinha, tatuei, na semana passada, os Oxês de Xangô e um raio, seu elemento. Faz tempo que ela estava nos meus planos e, quando eu soube que ele seria o Orixá regente de 2018 (junto com Exú), decidi que tinha chegado a hora.
Kawó-Kabièsilè!



quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Melhor do Mundo em 1995, Weah é eleito presidente da Libéria

George Weah é o único africano a já ter recebido o prêmio de melhor jogador do mundo e agora é o primeiro atleta do futebol a se tornar presidente.
O ex-atacante George Weah, de 51 anos, fez história nesta quarta-feira ao ser eleito presidente da Libéria.
Candidato da oposição, o melhor jogador do mundo em 1995 ganhou o segundo turno do pleito contra o atual vice-presidente, Joseph Boakai, ao conseguir ganhar em 12 dos 15 condados do país do Oeste africano.
Weah já tinha ganhado no primeiro turno das eleições com 38,4% dos votos - pouco mais de 596 mil.
No Twitter, o atacante com passagens marcantes por Monaco, Paris Saint-Germain e Milan agradeceu à população.
"É com emoção profunda que eu quero agradecer a vocês, povo liberiano, por me honrarem com seus votos hoje (terça-feira). É uma grande esperança", disse.
It is with deep emotion that I want to thank you, the Liberian people, for honoring me with your vote today. It is a great hope.  
George Weah tentou ser presidente em seu país-natal já em 2005, apenas dois anos depois de ter se aposentado do futebol. Ele perdeu, porém, para Ellen Johnson Sirleaf, a primeira mulher chefe de Estado da história da África.
Em 2014, o ex-jogador se candidatou ao Senado e conseguiu ser eleito.
Na carreira, Weah ganhou uma Copa da França (1991) pelo Monaco, um Francês (1994) com o PSG, dois Italianos (1996 e 1999) pelo Milan e uma Copa da Inglaterra (2000) com o Chelsea.
Esteve três vezes na seleção ideal da Fifa (1991, 1997 e 1998) e conseguiu o título de melhor do mundo em 1995 tanto pela entidade que rege o futebol mundial quanto pela revista France Football com a tradicional Bola de Ouro.
Fonte: ESPN

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

7 Anos de Ufanisi!


 O número 7 sempre foi considerado, em diversas épocas, culturas e religiões, como um número mágico. Representa a elevação do homem sobre sua base terrestre para lançar um olhar ao desconhecido em sua busca espiritual. O sete representa a totalidade, a perfeição, a consciência, a intuição, a espiritualidade e a vontade. O sete simboliza também conclusão cíclica e renovação. Na mitologia Yorubá, é o ano da confirmação.

Hoje, este blog que começou de maneira totalmente despretensiosa, completa seu sétimo ano. Lembro que foi nesta mesma época, há um ano atrás, que descobri que seria pai do garotão da foto acima. Hoje, Hórus já tem quatro meses e, de fato, minha vida se renovou com sua chegada.

Como sempre faço, gostaria de agradecer a todas as pessoas que me incentivam a continuar com o Ufanisi!, às que me dão ideias, sugestões, às que se inspiram (e também ME inspiram) e a todo mundo que conheci ao longo dos últimos sete anos. Peguei emprestada a música que Nando Reis fez pra filha, porque define muito bem esse momento.

Nando Reis - Espatódea

Minha cor
Minha flor
Minha cara

Quarta estrela
Letras, três
Uma estrada

Não sei se o mundo é bom
Mas ele ficou melhor
Quando você chegou
E perguntou:
Tem lugar pra mim?

Espatódea
Gineceu
Cor de pólen

Sol do dia
Nuvem branca
Sem sardas

Não sei quanto o mundo é bom
Mas ele está melhor
Desde que você chegou
E explicou
O mundo pra mim

Não sei se esse mundo está são
Mas pro mundo que eu vim já não era
Meu mundo não teria razão
Se não fosse a Zoé

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017